Des/encaixes cuir do velcro: corpos, imagens e cinemas em fricção

Autores

DOI:

https://doi.org/10.29327/2410051.8.23-55


Palavras-chave:

Metodologia cuir, Sapatão, Velcro, Vídeo ensaio

Resumo

Este artigo propõe o velcro como conceito teórico-metodológico, ancorado em experiências sapatão e cuir, que opera por meio de fricções, desencaixes e aproximações materiais entre imagens, corpos e desejos. Inspirado pela crítica feminista e queer, o velcro não visa à adesão permanente, mas a um movimento dinâmico de colagem e descolagem, evocando tensões, afetos e resistências. O vídeo ensaio emerge como prática fundamental nessa proposta, permitindo uma intervenção direta na matéria fílmica e materializando uma pesquisa encarnada e implicada. Como método, o velcro mobiliza tanto a hipermemória cinéfila – repertórios canônicos e referências conscientes – quanto a hipomemória do desejo – rastros afetivos e lembranças involuntárias. Essa dupla operação constrói um arquivo afetivo-político que desafia as normas da análise fílmica tradicional, recusando a pretensa objetividade e neutralidade crítica. Ao reconfigurar o cinema a partir do desejo sapatão, o velcro não busca estabilizar identidades ou métodos, mas propor um movimento contínuo de invenção, inventariação e intervenção. Sua potência reside justamente na capacidade de desorganizar narrativas hegemônicas, atritar categorias fixas e recontar a história do cinema a partir de perspectivas marginais. Trata-se de uma crítica porosa, que se faz no contato, no ruído e na diferença – uma metodologia que não fixa, mas abre fissuras para novos modos de ver, sentir e pensar o cinema.

Biografia do Autor

  • Ramayana Lira de Sousa, Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul

    Atualmente é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem e do curso de graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade do Sul de Santa Catarina. Realizou estágio pós-doutoral (bolsa Capes) na University of Leeds, Inglaterra, onde desenvolveu pesquisa sobre o realismo afetivo no cinema brasileiro. Foi bolsista do Programa Fulbright Scholar-in-Residence, nos Estados Unidos. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (1996), Mestrado em Letras (Inglês e Literatura Correspondente) pela Universidade Federal de Santa Catarina ("'There would this monster make a man': teratology and the rendition of Caliban in the 1993 RSC production of William Shakespeare's The Tempest, 2003), e Doutorado com pesquisa em cinema pela mesma instituição ("Images of violence and the violence of the image: the politics of violence in contemporary Brazilian cinema", 2009). Publicou artigos e capítulos de livro nos Estados Unidos, Europa e América do Sul. Co-organizou três livros sobre cinema. Pertence a diversas associações profissionais, tais como Abralic, Anpoll, LASA, BRASA, MLA, SCMS, Socine. Foi membro do Conselho Deliberativo da SOCINE nos biênios 2012-2013 e 2014-2015 e membro do Conselho Fiscal da Sociedade no biênio 2016-2017. Foi vice-presidente da SOCINE no biênio 2017-2019, re-eleita para biênio 2019-2021 e membro do Comitê Científico no biênio 2024-2025. Ex-representante da Setorial do Audiovisual no Conselho Estadual de Cultura de Santa Catarina (2021-2022). Foi co-coordenadora do Grupo de Trabalho Intermidialidade: Literatura, Artes e Mídia da Anpoll. Ex-presidente do Fundo Municipal de Cinema de Florianópolis (2019-2020).Atua como jurada e curadora em mostras e festivais.Tem experiência na área de Artes, Letras e Comunicação, com ênfase em Cinema, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria (feminista) do cinema, estética e política, cinema brasileiro, gênero, sexualidade e estudos queer. 

  • Alessandra Soares Brandão, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

    Professora do Porgrama de Pós-Graduação em Literatura (PPGLIt), do Programa de Pós-Graduação em Inglês (PPGI) e do Curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina. Realizou pesquisa de pós-doutorado no Centre for World Cinemas da Universidade de Leeds, Inglaterra (2012-2013), e um segundo pós doutorado, em 2024, junto ao Núcleo Pagu, na Universidade Estadual de Campinas. Tem doutorado em Literaturas de Língua Inglesa pelo PPGI/UFSC, com tese sobre o cinema latino-americano contemporâneo. Recebeu o título de Dean's Fellow de Dickinson College (Estados Unidos), onde realizou pesquisa de janeiro a maio de 2014. Foi vice-presidente da SOCINE - Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, na gestão 2015/2017, tendo sido Secretária Acadêmica desta Sociedade entre setembro de 2011 e outubro de 2015, e membro do Comitê Científico da mesma entidade nas gestões de 2017 a 2019 e de 2021 a 2023. Foi editora da Rebeca - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual de 2015 a 2017. É pesquisadora do IEG (Instituto de Estudos de Gênero) da UFSC. Em 2021, recebeu o prêmio 'Melhor Coletânea de Textos' da Associação da Imagem em Movimento (AIM), em Portugal, pelo dossiê "O cinema brasileiro na era neoliberal", coeditado por Lúcia Nagib (University of Reading, Inglaterra) e Ramayana Lira de Sousa (UNISUL, Brasil). Foi membro do Júri Oficial da Mostra de Tiradentes em 2022. 

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Publicado

12-03-2026

Edição

Seção

Dossiê Temático: Teorias Sapatonas

Como Citar

Des/encaixes cuir do velcro: corpos, imagens e cinemas em fricção. (2026). Revista Brasileira De Estudos Da Homocultura, 8(23). https://doi.org/10.29327/2410051.8.23-55